Guia prático

A GR1 não existe na Madeira (ainda): como montar a sua própria travessia

Quem procura uma travessia da Madeira ao estilo Grande Rota encontra informações contraditórias: umas fontes dizem que a GR1 já funciona, outras calam-se. Em julho de 2026 a resposta é clara: na lista oficial do IFCN não existe nenhum percurso da categoria GR. A boa notícia é que já hoje consegue montar a sua própria travessia com PR classificados, e pernoitas legais na montanha existem.

Resposta rápida

Não, o percurso GR1 não existe na Madeira. A lista de percursos classificados do IFCN (em 24.07.2026) inclui apenas percursos PR (PR 1 a PR 23, PR 27, PR 28 e variantes, mais PR 1 a PR 3 no Porto Santo). A categoria GR existe na lei (DLR 24/2022/M), mas nenhuma Grande Rota foi classificada até agora. A primeira, planeada com 93 km do Porto Moniz ao Machico, esteve em construção em 2024 e 2025 e ainda aguarda abertura.

De onde vem a confusão com a GR1

No registo da FCMP (Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal) existe um percurso com o número GR1: a Travessia das Serras da Peneda e Soajo, mas fica em Portugal continental. A Madeira tem um sistema de classificação próprio, gerido pelo IFCN, e nenhuma GR madeirense consta do registo.

A lei regional DLR 24/2022/M distingue as categorias: PR são percursos até 30 km (até um dia), GR são percursos acima de 30 km que podem juntar vários PR. A categoria GR existe portanto na lei, mas até julho de 2026 nenhum percurso foi classificado nela.

Também se confundem nomes de provas: o MIUT (Madeira Island Ultra Trail) é uma corrida de montanha e o Trans Madeira é uma prova de bicicleta MTB enduro de vários dias (cerca de 220 km). O nome Madeira Trail Ultra não existe.

A primeira Grande Rota da Madeira: cronologia do projeto

A 18 de outubro de 2022 o governo regional (secretária Susana Prada, reportagem da RTP Madeira) anunciou a primeira GR: 93 km do Porto Moniz ao Machico por todos os concelhos da ilha, cerca de 60% em PR existentes e cerca de 40% em novas ligações, para 3 a 4 dias de marcha. O plano de destino sustentável 2022 - 2030 (ação G50_227) prevê o orçamento de 399 580,50 €, com o IFCN como responsável.

A candidatura PRODERAM foi aprovada a 29 de agosto de 2022, os trabalhos começaram a 13 de maio de 2024 e a conclusão foi marcada para 31 de março de 2025 (100% de financiamento FEADER, segundo a página do IFCN, em 16.12.2024). Âmbito: desobstrução, degraus, guardas e sinalização. Em setembro de 2024 foram noticiadas as ligações do PR 14 ao PR 13 (Levada dos Cedros - Vereda do Fanal) e do PR 6.5 por Estanquinhos à Bica da Cana; parte dos trabalhos foi suspensa após o grande incêndio de agosto de 2024 (mais de 5 045 ha segundo a agência Lusa, valor indicativo).

Depois de 31 de março de 2025 não foi publicado qualquer comunicado sobre abertura ou classificação do percurso. Em julho de 2026 o trilho não existe como GR classificada, embora a infraestrutura esteja em grande parte pronta. A sinalização da GR será branca e vermelha (menção de imprensa de 2022, indicativo).

Como montar a sua própria Grande Rota já hoje

O princípio é simples: mantenha o eixo oeste - este e ligue os PR classificados como contas, tratando das formalidades por percurso. Os 93 km anunciados para 3 a 4 dias são um ritmo forte; realisticamente planeie 3 a 6 dias, conforme a forma física e as variantes que juntar. As duas ligações do projeto da GR (PR 14 com PR 13, e PR 6.5 à Bica da Cana) encurtam os saltos mais difíceis.

Exemplo não oficial, encare-o como inspiração e não como recomendação: no site Wikiloc descreve-se a Travessia total da Madeira em autonomia com 120 km em 6 etapas e 9 141 m de desnível, traçada segundo o percurso do MIUT 2018 (dados do site Wikiloc, indicativo).

Pernoitas legais: zonas de campismo e refúgios

Acampar nas florestas públicas só é permitido nas ZONAS DE ACAMPAMENTO assinaladas (mapa na página do IFCN). A licença tira-se no SIMplifica: 5,00 € por tenda por noite, com isenção para residentes na Região Autónoma da Madeira. É proibido fazer fogueiras, colher plantas e alimentar animais, e traga o documento consigo para a Polícia Florestal. A infração arrisca multa e expulsão (não confirmamos os valores). Na ponta de São Lourenço a tenda só é permitida junto ao Cais do Sardinha (5,00 €, com vigilância dos Vigilantes da Natureza).

Existem ainda 6 refúgios Casas de Abrigo com reserva no SIMplifica: Rocha do Navio (Santana, máx. 8 pessoas, cozinha e WC, leve gás e roupa de cama), Cedro - Montado do Pereiro (Camacha, máx. 8 pessoas) e Sorveiras (Monte, 1 530 m, máx. 4 pessoas, 25,00 € por noite, máx. 3 noites seguidas, uma vez por ano, maiores de 18, sem eletricidade nem água potável; a página do IFCN marca-o atualmente como Temporariamente indisponível). Os restantes três: Casa do Pico das Pedras, Casa do Lombo do Mouro e Casa anexa do Lombo do Mouro. Estados e regras segundo o IFCN em 16.02.2026.

Formalidades de 2026 numa travessia de vários dias

As reservas no SIMplifica e as taxas aplicam-se também numa travessia, por cada percurso e dia: a taxa padrão é 4,50 € e o PR 1 custa 10,50 € (em julho de 2026). Escolhe-se um horário de 30 minutos para cada troço pago, por isso adapte o plano de etapas às horas das reservas.

Quando ir: o clima de uma travessia

O relatório ARRAM 2023 (Proteção Civil, com dados do IPMA) indica para a montanha uma média anual de 10,3 °C contra 20,2 °C no Funchal e cerca de 3 000 mm de chuva por ano (normal de 1961 - 1990); entre 2000 e 2021 os totais caíram para cerca de 2 066 - 2 300 mm. O nevoeiro é quotidiano: cerca de 230 dias por ano na Bica da Cana e cerca de 235 dias no Pico do Areeiro, com casos documentados de desorientação. As rajadas ultrapassam 100 km/h várias vezes por ano e o cenário de tempestade conta com mais de 150 km/h.

As melhores janelas para uma travessia são a primavera (de abril a junho) e o início do outono (setembro e outubro): é a nossa conclusão editorial a partir dos dados do IPMA acima, não uma recomendação oficial. No inverno conte com encerramentos temporários de trilhos após avisos.

Para corredores: o MIUT como equivalente mais próximo

Se a travessia lhe interessa em versão de corrida: o MIUT (Madeira Island Ultra Trail) é uma prova de 115 km com cerca de 7 100 a 7 200 m de desnível, do Porto Moniz ao Machico pelo Pico Ruivo (1 861 m) e pelo Pico do Areeiro, em grande parte por percursos PR. É organizado pelo Clube de Montanha do Funchal desde 2008; a 17.ª edição decorreu a 25 e 26.04.2026 e o site do evento já anuncia a 18.ª edição para 24 e 25.04.2027. As distâncias paralelas são cerca de 85, 56 a 60, 40 a 42 e 16 km, e a série pertence ao World Trail Majors.

O eixo Porto Moniz - Machico: candidatos do catálogo PR

A travessia GR1 planeada deveria ligar o oeste ao este da ilha. Os PR classificados abaixo formam um eixo semelhante; liga-os com transfers ou pequenas ligações a pé, como no projeto da GR. Distâncias conforme o nosso catálogo, estados segundo o IFCN em 24.07.2026.

PercursoNomeDistância kmEstadoPapel no eixo
PR 14Levada dos Cedros5,8AbertoInício a oeste, laurissilva
PR 13Vereda do Fanal10,8AbertoA crista do Fanal; o projeto da GR prevê ligação ao PR 14
PR 6Levada das 25 Fontes4,3AbertoO clássico do Rabaçal, reserva obrigatória
PR 6.1Levada do Risco1,8AbertoMesmo início do PR 6, extensão fácil
PR 6.5Vereda do Pico Fernandes3,9AbertoProjeto da GR: ligação por Estanquinhos à Bica da Cana
PR 9Levada do Caldeirão Verde6,5AbertoLevada do norte, início nas Queimadas
PR 1Vereda do Areeiro7Regime de circulaçãoA crista icónica, sentido único desde 26.06.2026
PR 8Vereda da Ponta de São Lourenço3AbertoFinal seco na ponta leste da ilha

Estados segundo a lista do IFCN de 24.07.2026: fora da tabela estão encerrados o PR 7, PR 20, PR 27, PR 28 e PS PR 3, e parcialmente abertos o PR 4, PR 12, PR 1.3 e PR 17. Os estados mudam após avisos do IPMA, confirme-os em direto antes de cada saída (botão no fim da página).

Guias relacionados

Fontes oficiais

Atualizaremos este artigo quando o IFCN classificar a primeira Grande Rota da Madeira. Os números e datas vêm das fontes indicadas no texto (IFCN, SIMplifica, PRODERAM, ARRAM/IPMA, RTP Madeira, imprensa); os itens marcados como indicativos devem ser confirmados na fonte. Formalidades em julho de 2026.

Ver os estados dos trilhos em direto